João K mostrou a oportunidade do Brasil para intensificar a produção de forma sustentável com os sistemas ILPF

Os benefícios dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), atualmente presentes em cerca de 15 milhões de hectares no Brasil, foram apresentados pelo pesquisador João Kluthcouski (João K), da Embrapa Cerrados, em palestra realizada no dia 3 de maio, em Uberaba (MG), durante a Expozebu 2019. A palestra integrou a programação do 10º Encontro Rural Jovem, promovido pela ABCZ Jovem em parceria com a Sociedade Rural Brasileira, e contou com a participação de cerca de 600 pessoas, entre estudantes e jovens produtores rurais.

João K iniciou a apresentação elencando os saltos qualitativos na agropecuária brasileira desde a década de 1970 com a introdução e o melhoramento de forrageiras tropicais, a introdução e o melhoramento da raça bovina Nelore e outras, o domínio na correção de acidez e adubação dos solos, a tropicalização da soja, o Sistema Plantio Direto (SPD) e a safra e safrinha num mesmo período de chuvas. “Temos hoje o melhor zebu, o melhor capim, a melhor soja. Os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e ILPF são a síntese de todas essas revoluções”, comentou.

Por outro lado, o pesquisador elencou os limitantes mais frequentes relacionados aos solos na agropecuária brasileira – compactação, baixa fertilidade do perfil, necessidade de calagem na dose recomendada e na profundidade de incorporação, baixo teor de matéria orgânica do solo, inadequações na Fixação Biológica de Nitrogênio, manejo inadequado das pastagens, necessidade de palhada de cobertura do solo no Sistema Plantio Direto, inadequação na rotação de culturas, entre outros. “Ainda temos muitas informações para gerar e transferir. Esses são alguns exemplos da nossa missão”, apontou.

Oportunidade

Ele apresentou dados sobre o uso da terra no Brasil, destacando a estimativa de que 100 milhões de ha de pastagens estejam degradados e que cerca de 82% dos pastos degradados, sendo que a taxa de lotação média é muito baixa – 0,8 unidade animal (UA)/ha. “Essa é a nossa oportunidade”, afirmou, referindo-se às possibilidades tecnológicas de recuperação de pastagens que permitem dobrar a produção de grãos, triplicar a capacidade de suporte das pastagens, ofertar empregos com menores investimentos, regularizar a distribuição de renda e melhorar a qualidade ambiental.

A primeira possibilidade é a recuperação ou renovação de pastagens, que envolve a correção da acidez do solo, adubação, destruição de cupinzeiros e de plantas daninhas e a descompactação do solo. O processo pode ser de forma direta, com práticas mecânicas, químicas e agronômicas, ou indireta, com o uso de ILP ou de pastagens anuais. 

“O retorno da recuperação se dá pelo boi, o que nem sempre tem sido possível. Na integração, o objetivo é a lavoura subsidiar, senão totalmente, a maior parte dos custos (da recuperação), e fornecer uma pastagem de alta qualidade. Na verdade, tem ocorrido que a lavoura não só subsidia, como dá lucro”, explicou João K, acrescentando que os sistemas de integração permitem quatro safras por ano (soja, milho, boi e palhada).

O pesquisador falou sobre as diferentes formas de integração, seja por consórcio, sucessão ou rotação de culturas agrícolas e espécies forrageiras. Como exemplos de consórcios, ele citou o Sistema Barreirão (culturas anuais com braquiárias para a recuperação e renovação de pastagens degradadas em solos degradados); o Sistema Santa Brígida (culturas anuais, capim e leguminosas para diversificação da forragem e formação de palhada); e o Sistema Santa Fé (produção de forragem para a entressafra e palhada para o Sistema Plantio Direto).

Braquiária

O papel da braquiária nos sistemas de integração foi destacado pelo pesquisador, que citou diversos benefícios da gramínea, como aumento da biomassa de cobertura, recuperação de pastagens, aumento de matéria orgânica, da reciclagem de nutrientes e da retenção de água no solo. João K mostrou imagens de trincheiras abertas para evidenciar a profundidade e a profusão das raízes da braquiária no perfil do solo. “Não é simplesmente um sistema radicular, é imobilização de carbono no perfil, geração de canais para a entrada de água, é aumento da atividade biológica do solo. E é por isso que a soja produz mais depois de uma braquiária”, disse.

Segundo João K, entre os principais sinergismos dos sistemas ILP estão a potencialização do Sistema Plantio Direto e a possibilidade de gado precoce em pastagens de qualidade.

Ao falar sobre sucessão em ILP, ele citou como exemplo a sucessão soja, milheto, sorgo pastejo e forrageiras perenes. “Todas as culturas de grãos e espécies forrageiras são contempladas por sistemas de integração, que servem para 1 ha ou para 1 milhão ha e são adaptáveis para todas as regiões”, disse. 

Já a rotação pode ser feita com o plantio, no verão, de soja em área degradada e pastos anuais no inverno por dois anos para recuperar o solo. Em seguida, é feita a transição para o milho consorciado com braquiária por outros dois anos. O milho é então colhido e o gado se alimenta do capim.

Sobre a introdução do componente florestal no sistema de integração, João K lembrou que as árvores formam cortinas que minimiza o efeito dos ventos, principais responsáveis pela secagem de pastos no Brasil, além de proporcionar conforto animal e renda com a madeira.

Os sistemas de integração também viabilizam o chamado “boi safrinha”, quando os animais são engordados na entressafra de grãos alimentando-se, por pelo menos três meses, da pastagem formada após consórcios de milho com capim ou com o plantio direto de forrageira anuais e perenes após a cultura da soja.

Diversas modalidades

João K abordou os benefícios de outras modalidades de ILP, como o Sistema São Mateus, destinado à recuperação de pastagem com soja após correção de solo e plantio do pasto no primeiro ano; o Sistema Santa Ana, que proporciona a recuperação de pastagens com produção de silagem; a formação do feno tropical, com elevado teor de proteína, a partir dos consórcios de Brachiaria ruziziensis com feijão caupi ou guandu; a introdução do girassol nos sistemas de integração no Cerrado; o Sistema São Francisco, com sobressemeadura de capim em culturas de grãos em fim de ciclo; o Sistema Vacaria, que recupera pastagens com a dessecação parcial do pasto e o plantio de culturas agrícolas.

Em seguida, o pesquisador apresentou dados sobre a evolução da fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO) após a implantação do sistema ILPF em 2006. A fertilidade do solo tem melhorado a cada safra, com teores crescentes de fósforo e matéria orgânica. As safras de soja e de milho, bem como o número de arrobas produzidas pela pecuária, são maiores a cada ano, e o sistema ainda fornece palhada suficiente para o Sistema Plantio Direto.

Outro caso de sucesso é o do Grupo Viacava, que tem propriedades de pecuária nos solos arenosos do Oeste de São Paulo. A introdução do sistema ILP com rotação de culturas promoveu o aumento da matéria orgânica do solo, garantiu a manutenção dos resíduos vegetais que formam a palhada sobre o solo, viabilizando o Sistema Plantio Direto e eliminando o preparo de solo. As pastagens formadas estão possibilitando a expressão da qualidade genética dos animais, com novilhas superprecoces de 10 a 14 meses sendo emprenhadas, com taxa de prenhez superior a 80%.

Um aspecto importante dos sistemas de integração mencionado pelo pesquisador é a mecanização da semeadura das forrageiras. Além de ser feita a lanço, pode ser realizada com plantadeira, motossemeadora, matraca e até avião agrícola.

Ao final, João K destacou os benefícios sociais promovidos pela ILPF. “A pecuária extensiva gera poucos empregos. Quando você integra os sistemas, emprega mais pessoas”, afirmou, mostrando o exemplo da Fazenda Santa Brígida, que de três empregados em 2006 passou para 28 em 2018.

 

Foto: Breno Lobato

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